A paixão de Amâncio Amaro

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Ponto de vista

Publicado no Guia, em O Estado de S. Paulo
Sou míope. Mesmo semicerrando os olhos, o mundo não define seus contornos. Quem roubou o meu foco?

Quando criança, não enxergava direito as bajulações que me faziam. Nunca fui o gênio alardeado, era apenas filho único, primeiro neto e primeiro sobrinho. Cada sílaba minha, um espanto. Quanta distorção.

Depois, não vi o branco da bola se aproximando no primeiro treino de futebol de campo no Colégio de São Bento. Eu era goleiro: queria ser. Apareci todo arrumadinho, as luvas azuis combinando com a camisa estofada no peito, calça preta e chuteiras novas. Entrei em campo, dei leves chutes e tapinhas em cada trave, medi os passos entre elas, cisquei a terra e me benzi. Os meninos pensaram: esse entende. O primeiro chute passou por debaixo das pernas.

Mais tarde virei Dasayev, o grande goleiro russo. Ideia dos meus primos. Não vi que era apenas para quebrar o braço em saltos impossíveis.

Também não vi que levava jeito para escrever, desde o jornalzinho da família que fazia na máquina do meu pai. Fui querer desenhar. Anos depois, ao me ver rabiscando com dificuldade, um colega de trabalho comentava com a ironia a escorrer nas palavras: “que traço solto, olha!”

Não tenho facilidade em enxergar a hora de ficar calado, ou de dizer o que me ocorre. Como sou míope, enxergo com clareza apenas quando o momento está perto demais e não dá para reagir. Se fosse hipermétrope, de pouco adiantaria: só enxargaria melhor na distância – quando já é tarde e muito depois de tudo haver passado.

Em Olinda, via o mar. No Recife, via o beco. Em São Paulo, enquanto a vista não se acostumava, o que se destacava na paisagem era o peixe fora d’água, a praia distante, o céu oferecido apenas para quem decide levantar a cabeça.

Quando a gente está apaixonado fica bom da vista. São Paulo se curou. Casei. Hoje, a vista que tenho é um terreno preto de noite, onde as luzes das casas são estrelas que as nuvens deslocam do céu.

Mesmo apaixonado, não sei ainda ver as notas do violão, a utilidade de ser vaidoso, quem faz o quê em campo, o facínio de certos livros, a medida exata, porque fazer certas coisas (e o custo de fazê-las), não sei ver o tamanho da paciência, o limite das cobranças, se vai chover, as horas perdidas, a beleza da ópera, a graça de certa gente, o não embutido no sim, onde deixei a chave das coisas.

Sou míope. E — prova da minha miopia — achei que usando óculos resolveria o problema.

3 em 1

Publicado no Guia em O Estado de S. Paulo
Existe um lugar no impossível do existir, um ponto situado ao mesmo tempo em São Paulo, Recife e Londres. É uma cidade inteira misturada destas outras três, tão diferentes e improváveis que quase não cabem numa mesma frase. Até que você vai a Joanesburgo.

As águas do Atlântico misturaram tudo lá, com uma pitada de Tietê, Capibaribe e Tâmisa. Deu Joanesburgo, cidade sem mar e sem rio.

Nos tijolos vermelhos, nos nomes pomposos (London Road, Oxford Court, Empire Road), no chá, no trânsito na mão errada, em tudo isto está uma Londres tropical, cheia de sol e céu azul. Os cabelos ruivos, as sardas, as bermudas. Então você vira uma rua e está em Soweto — o Recife em inglês. Cabeleireiros pobres do Recife, camelôs maliciosos do Recife, oficinas pé de escada do Recife, ruas de barro do Recife da minha infância. Tudo em inglês. “Vende galinha-se”, em inglês. “Borracharia Zé Mecânico”, em inglês. Pente de plástico azul turquesa em inglês. Até o sotaque se sente estrangeiro, e a língua é falada sem cerimônia nem flêuma. A língua ali é mesmo usada, gasta, abalrroada por outras vogais mais moles e safadas, que fazem uma fricção redonda na boca do povo de boca aberta, sempre sorrindo. Não pode ser inglês. O que se fala ali é um “licença meu branco” com cheiro de Irene preta, Irene boa, Irene sempre de bom humor. Poema de pernambucano. E assim, sem alarde, os africanos fazem com a língua inglesa as estripulias que nós fizemos com o futebol.

Virando outra rua, estamos num shopping. Mas sem a arquitetura charmosa de Londres, ou colonial do Recife. Estamos em São Paulo. O progresso rasgando a cidade, pontilhada de guindastes. É a capital mundial do guindaste. Tudo por fazer e sendo feito ao mesmo tempo. A São Paulo dos executivos de BMW e dos porteiros nordestinos. Terra de shoppings e de trabalho. De medo do assalto. Estamos tanto em São Paulo que até um Rio de Janeiro por perto eles têm: a Cidade do Cabo, o charme mais molenga espremido entre as montanhas e o mar.

Já vivi no Recife. Vivo em São Paulo. Admiro Londres à distância, com seus costumes esquisitos e sanduíche de pepino. Ao chegar em Joanesburgo, encontrei no meu passado muitas lembranças deste lugar em que nunca estive (como nos sonhos, onde a porta do escritório dá para a sala da casa da nossa avó). E foi neste lugar de portas mágicas que eu vi a seleção brasileira voltar até 1982 e devolver 3 gols àquele nosso nó azul entravado na garganta. Um jogo que só poderia acontecer na mistura do tempo, e do lugar.

Estrelas

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É noite. Olho para o céu. As estrelas caíram da nuvem preta e se espalharam no chão em milhares de janelas. Dentro de cada estrelinha tem gente morando. Vista bonita em São Paulo é vista longe. No mais é tudo prédio: de dia são cinzas; de noite, estrelas.

Dentro de uma delas, um homem cansado abre a porta. É alguém a quem se desejou bom descanso. Uma mulher haverá de estar também lá dentro. Crianças dormem, as chatas fazem barulho. Brigam por qualquer coisa, cansadas do dia e sem desistir do sol que já as deixou. É tarde, e as luzes queimam filamentos nos apartamentos onde as crianças choram dentro de estrelas.

Na cabeça da mulher do homem cansado, o céu está coberto por nuvens. E já faz alguns anos, desde aquele dia em que, encostados ao pé do muro, o homem lhe fez votos ao pé do ouvido, exagerados, e ela, embevecida pelo sopro das palavras (e pelas mãos que corriam soltas no vestido) disse que sim e viu estrelas. Desde aquele tempo não vê mais nenhuma. Caíram todas com a rotina, com a barriga do homem crescendo, com o sim sem estremecimento nem afobação, com a estrela sendo tudo em volta, na moldura de uma janela que ela não sabe existir.

Mas não é isso que se vê. É apenas um homem que chega em casa cansado e recebe um beijo da mulher. De longe toda vida é mais amarela de luz.

Dentro das janelas distantes todo mundo está sempre recém saído do banho (mesmo quem chegou da rua), tem cabelos penteados, tempo para jantar e para ler um livro. Sentam-se em poltronas à beira do abajur, em salas de simplicidade exata e bastante. Alguns esbanjam e se debruçam sobre o tempo estancado, olhando de lá o ser atormentado que os observa de cá. Nada preocupa quem vive nos quadrados distantes dos nossos aborrecimentos. Nada sabem das nossas dúvidas, chateações e da esperança vaga que algo bom (o quê?) virá um dia nos salvar da nossa janela e nos levar para esta outra, sempre distante e tranqüila.

Passa uma moto e encerra a noite de devaneios com seu grito. Subitamente as estrelas voltam ao céu, por trás das nuvens. Janelas são janelas. E a luz vermelha da moto que corta a rua deixa de ser uma estrela cadente. Se alguém lhe faz um pedido, é que ela passe logo com o escapamento zunindo tão tarde da noite. Ela passa, e carrega outro pedido: uma pizza.

Um cachorro late. “Na poça da rua o vira-lata lambe a lua.” Que lua, Millôr? Uma estrela se apaga. Vou dormir.

@DedeLaurentino


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O olindense em mim resistiu como pôde. O carnavalesco, o odara de chinelos, o escritor com camisa de linho, todos esses — que eu tanto luto para ser — perderam para o André tecnológico. Não houve jeito: ganhei um iPhone.

Agora eu faço listas, anoto compromissos, sei a hora na Nova Zelândia e twito todos os dias (@DedeLaurentino, como me chamam por lá). Eu não gostava de redes sociais e nunca me imaginei seguindo o MoMA. Primeiro porque ele não anda. Segundo porque fica parado lá longe. E terceiro porque eu simplesmente não sabia o que era seguir um museu, uma revista ou uma festa. Agora eles não param de me mandar notícias.

Nos 140 caracteres do Twitter acontece de tudo. É o paraíso dos frasistas. Tem desde algo ridículo como “Miojão na firma. Tá servido?” até maravilhas do tipo: “Meu vizinho foi preso por tentativa de homicídio. Que sociedade intolerante. Agora prendemos pessoas por falharem.”

Esta semana, algumas de minhas manias se encontraram ali: recebi um twit dizendo que a última capa da revista The New Yorker foi desenhada num iPhone. The New Yorker, Twitter e iPhone na mesma frase. Fui logo comprar (“fui” é modo olindense de dizer, na verdade nem saí da cadeira) fui comprar o aplicativo que transforma nossos dedos em pincel e tinta.

Não desenho bem, e não sei pintar de jeito algum (sequer digo a velha piada do “você não pinta como eu pinto”). O que eu faria então com um aplicativo criado para ilustradores? Por dez reais topei descobrir a resposta, sem sujar a casa de tinta.

Primeiro, trapaceei pintando sobre uma foto. Escolhi uma do Rio de Janeiro para não ter erro. Mesmo feio, o Morro Dois Irmãos fica lindo. Ficou.

Depois ousei. Parti de uma folha em branco (que folha, olindense? É de vidro) e desenhei esta garotinha na praia, que aparece aqui na página. É meu primeiro quadrinho de iPhone. Fiz até um filme com o passo a passo do desenho. Está no YouTube. É só clicar aqui. Prova de que fiz tudo sozinho. Claro que, sendo brasileiro e sem muito talento, usei um pequeno truque. Envolve aquele plástico para embalar comidas. E mais não digo.

Antes de postar o link do vídeo no Twitter, liguei para um amigo (ah, o iPhone é também telefone). Ele disse: “O Twitter já tá velho, Dedé!” E me falou de uma nova onda que a mulher dele conhece. Só ela e outras quatro pessoas. Daqui a 5 anos eu descubro.

Mundo

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Esta semana vi um garoto de 5 anos chorando no saguão do prédio: “ninguém deixa eu falar! Ninguém deixa eu falar!”. A reclamação vinha sentida, num choro mais de surpresa do que de raiva. Era um momento de revelação para o menino. A mãe estava ao lado, e conversava com uma amiga.

Às vezes olho para minha filha pequena e penso no dia em que ela vai perceber que o mundo é outro. Por enquanto, seu mundo ainda é um. Tão real quanto este, e tão mais perfeito. Um mundo onde as histórias têm sempre moral, e algum sentido. Onde Porto Alegre é um andar do elevador, e o céu é laranja (olha, papai: tá cor de rosa!).

No mundo em que ela vive, eu sei a resposta de tudo. A autoridade existe para confortar e abraçar — que diferença. Um gato vira estrela e a deixa triste. Mas a estrela é o encanto, a luz por trás do pano esburacado da noite. E não deixa a gente sofrer por mais do que um minuto. Logo já está rindo. Um mundo com regras de borracha.

Eu e minha mulher fazemos o possível para manter intacta a soberania desta terra. Fazendo Willy Wonka ser o guia da fábrica que ela constrói na cabeça. Com muito jeito, apontamos também os limites do território. Até brigadeiro, minha filha (a melhor invenção daqui) pode dar dor de barriga.

Até quando ela vai estar livre dos ataques do bom senso? Qual será o dia em que ela vai entrever, no meio de alguma frustração, que dali em diante vai ser diferente? Que, quando a raiva passar, ela não estará de volta àquela terra? Mas chegará em outro lugar parecido com aquele, quase igual, mas que ela, mesmo sem saber, suspeitará ser mais áspero e sem graça. Neste dia, um cisco cairá em seu pensamento. E a partir daquele cisco haverá um afastamento secreto e leve, tão leve, mas sempre um pouquinho mais para além do mar.

Outras praias, outros sustos. Conhecerá outro pai e outra mãe: falíveis agora. E reclamará desta supresa que nunca lhe foi escondida.

De uma hora para outra, seu respeito maravilhado pela autoridade dará vez às suas póprias ordens. E ela entrará com passos bambos na adolescência. Bambos e firmes. Neste dia, quero lhe dizer que sei o porquê de tantos esbarrões, de tantas janelas abrindo e fechando, quando antes não havia sequer a parede. Eu sei do vento cheio de areia e ciscos, soprado junto às paixões. Eu sei. Pois graças a essa menina, que hoje é uma criança, eu posso estar outra vez no mundo mágico de onde viemos — e de onde é tão duro partir.

Não Fungue

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Não falarei da gripe suína. Mas da gripe que nos transforma em porcos.

Estou em um voo internacional de 8 horas. O passageiro ao meu lado aspira o nariz a cada minuto (perto do que ele faz, “aspira” é um termo gentil). Toda gripe tem etiqueta, embora pouco conhecida — principalmente pelo meu colega de voo.

Fungar o nariz, ainda que de leve, é um gesto a ser reprimido. Se uma única vez, pode até ser tolerado. Mas tudo muda a partir da segunda fungada. É ela quem sugere a ameaça de um padrão infinito. Uma olhada para o fungador é o código engendrado pela sociedade: os ruídos foram percebidos. E não aprovados.

Mas para quem funga, a situação é outra. Há prazer no ato, pois poupa a alternativa trabalhosa de assoar o nariz. Assoar exige o movimento de pegar o lenço. E a tarefa de se desfazer dele depois. Resta ainda a possibilidade do trabalho não ser bem feito, exigindo uma sábia consulta ao espelho. Fungar o nariz evita tudo isso. Por esta razão, a primeira fungada — e somente ela — é tolerada.

Vale notar que assoar o nariz faz muito mais barulho. Mesmo assim, é bem aceito. Tanto que, depois de assoado o nariz, admite-se até uma fungadinha de arremate.

Em minhas viagens de estudo sobre o assunto, vi que o europeu aceita as assoadas mais escandalosas. Toleram verdadeiras trombetas de orquestra sem reclamar. Talvez a chuva e o frio severo tenham feito o “ouvido social europeu” (chamemos assim) surdo às assoadas. Mas não às fungadas. Ao mínimo sinal de uma, todos censuram (no caso da França, bufam).

Uso este recurso para intimidar o passageiro ao lado. Ele está de olhos fechados e não nota minhas investidas. Espero com paciência e, quando ele capricha ao ponto de arregalar os olhos, lá estão os meus, debaixo de sobrancelhas fechadas. Ele não entende. Faz leve menção de falar quando volto a afundar-me num livro, encerrando o contato.

Talvez ele teria dito: “é rinite”, na tentativa de um atenuante. Sabe-se em toda parte que as aspirações decorrentes de rinite são mais toleradas.

Na TV de bordo, o mapa mostra que sobrevoamos o México. Meu companheiro percebe, e vê que suas fungadas chamam demais a atenção. Os outros passageiros farão um motim. O comissário virá com máscara e algemas. Será preso em terra firme pelo FBI, que o arrastará por mais que ele grite: “it’s rinite! It’s rinite!”. Tudo isso passa pela sua cabeça. Ele levanta os olhos para mim. Faço um leve menear de cabeça, concordando. E o voo segue em silêncio.

Comida típica

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Na época do dólar um pra um eu morava sozinho e gostava de boxe na TV. Um dos melhores acompanhamentos para o boxe era uma pasta americana de queijo cheddar servida com batata Pringles. Ambos importados e baratos, graças ao câmbio de fantasia. O queijo vinha numa lata tipo spray e saía sob pressão, espoucando feito chantilly. O cheddar era de um laranja tão vivo que, de noite, sua luz incomodava os vizinhos. Na embalagem tinha um splash exuberante que gritava “feito com queijo de verdade!”. Nunca acreditei no splash e acho que aquele queijo, se visse uma vaca, não diria “mamãe”. Talvez dissesse “leve-me a seu líder” ou algo parecido. Sei apenas que dentro do meu estômago o queijo conversava bastante.

Acostumei com o sabor dessas comidas. Tanto que uso a palavra “sabor” para me referir a elas. Anos depois, já casado, cheguei em casa muito tarde. Havia uma sopa de capeletti no fogão. Tomei três pratos. Ia elogiar a cozinheira quando vi uma embalagem plástica jogada no lixo. Sim, era comida em pó. Feita por mãos humanas, e aí resume-se seu contato com a natureza. A lista de ingredientes lembrava mais uma tabela periódica do que uma receita da vovó.

O ideal é desconfiar. Principalmente quando a embalagem diz que aquela batata tem gosto de batata. Existe outra? Sim. Todos conhecemos as batatas de pizza, de presunto defumado ou de sal e vinagre (minhas favoritas). Elas nascem nas prateleiras e não têm agrotóxico. Aliás, de “agro” elas têm muito pouco. São tantos sabores que a batata com gosto de batata é classificada de tradicional (uma coisa ter gosto dela mesma é uma tradição milenar).

Eu disse que o ideal é desconfiar mas não adianta. Todo dia aparece uma comida saudável e perfeita que vira veneno. Ovo, por exemplo. A cada noticiário de domingo ele muda. Salva hoje. Mata na semana que vem. Volta a salvar, etc. Ou você come ovo na semana certa ou para de prestar atenção nessas coisas. Vai dizer que você, sinceramente, já tinha se imaginado lendo sobre o colesterol do bem? Isso é tão assustador quanto o aviso de que um queijo é feito de queijo.

A vida solteira em São Paulo, e fora da casa dos pais, me apresentou pozinhos mágicos, sopas que fazem expandir legumes e cheddar com ruído de creme de barbear. Todos temperados com o dendê da era moderna: o glutamato monossódico, o realçador de sabor. Nada disso me choca. O que realmente me faz cair o queixo é quando eu volto para Olinda e vejo um paulista pedir tapioca com leite condensado. Isso sim, devia ser proibido por lei.

Leia e responda

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Fulano é vaidoso. E tem todo o direito de ser vaidoso, o que lhe falta é motivo. Já Beltrano é firme como uma biruta de aeroporto. E cicrano é tão prolixo que seu resumo de um livro de 30 páginas tem 80. Aquele moderninho ali, no telefone, é tão infiel que ainda vai se trair transando com a própria esposa. O pedante pensa que tudo sabe, e o arrogante não sabe que nada sabe. O de barba? Não, ele é o teórico: come a receita e xinga o prato. O outro, aquele de óculos digitando no computador, gosta tanto de mandar que toma táxi só para dar ordens. A indecisa nunca deu uma opinião, fica rouca de tanto pensar. O incompentente vendeu a alma ao diabo mas entregou a Deus. Aquela ali é eficiente mas tediosa, convence pelo cansaço. Já o que saiu agora, apressado, cobra dos outros a eficiência que gostaria de ter. Aquela ali é a bússola da equipe: roda, roda, roda e indica sempre a mesma direção. O inteligente há pouco tempo é insuportável, chegou mais tarde porque foi no dentista. Aquele outro lá, gordinho, se mete em tudo mas é um chutador: ouviu o galo onde mas não sabe cantar. Aquela não para de reclamar nem para beber água, mas não bebe porque acha barrenta. O outro é tão invejoso que quando se vê no espelho bate três vezes na madeira. Aquele é um vagabundo, o único ocupado na sala dele é o telefone. O de marrom é covarde, só não é mais covarde por medo de competição. Esse cara aí a turma chama de autobiografia não autorizada — só fala de si sem ninguém ter perguntado. O outro é tão carreirista que o único valor que tem é o venal. Enquanto o ingênuo reconhece firma por telefone. A que vai passando com o café nunca acertou uma roupa na vida: é a legítima “fashion victim”. Olha a saia dela. O que tá rindo não é simpático, não. É egoísta, acha que altruísmo é quando os outros pensam nele. Tem o que vive em cima do muro, desde que ninguém discorde. Tem o culpado, tão culpado que, quando alguém brinda “saúde!”, ele espirra (é também um mostruário de carapuças). Justamente o caso contrário daquele ali, falso humilde, que aprende com o próprio erro dos outros. Aquele com a carequinha brilhando é o “telhado de vidro”: tem um passado cheio de falcatruas e cabelos. E o maledicente da turma tem sempre uma reputação a melar. Isso aqui tem gente de tudo quanto é tipo, meu filho. É o supermercado de Deus, e o que não falta é prateleira.

Agora, caro leitor, assinale a alternativa certa. Estamos no:
A) Elevador da firma
B) Senado
C) Cabeleireiro
D) Único lugar sincero do Brasil

Um tipo

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Há um tipo poucas vezes estudado nas sociologias de mesa de bar. São as pessoas que explicam.

As pessoas que explicam vão além do que precisa ser explicado. Invadem as fronteiras do razoável com um arsenal de frases de longo alcance. Entram no táxi e, em vez de “Av. Paulista”, dizem: “Vamos na Paulista? É que eu preciso ir numa loja na Teodoro, que o vendedor disse que segura a peça até às 4h15, mas ele saiu e o colega não sabe onde está, ou ele volta antes das 4h15 ou então só na Paulista, assim é melhor ir direto lá porque…” Não precisava. Mas a pessoa que explica não sabe disso. Paciência.

Outra, num avião. Eu estava sentado e chegou um senhor mancando. Perguntou se eu fazia questão de trocar de lugar porque… Levantei-me na hora. Vendo que o homem mancava, não precisei de detalhes. Mas ele, sim. Contou que tinha dificuldade em dobrar a perna, e a poltrona do meio etc. Eu já estava sentado na outra cadeira e ele continuava. Mostrei que aceitava, que tudo bem e tal. Ele prosseguia. Então, um rapaz ao meu lado gritou: Tá bom, já vendeu! Já vendeu! — o vôo seguiu em silêncio.

Um fator importante da pessoa que explica é só explicar o que não precisa. Será capaz de pedir ao garçom: “uma pimentinha para eu pôr aqui na comida.” Mesmo que singelo, eis aí um flagrante. A pessoa que explica mora nas redundâncias. Geralmente escreve “Brasil” no endereço das cartas nacionais. E “América do Sul” nas internacionais.

Por falar em gringos, minha avó Creusa fala alto quando explica para eles. Assim entendem melhor. Quando um comandante grego veio passar o natal em nossa casa, minha vó acrescentou mais esta: além de alto, falava errado. Apontava uma foto e berrava na orelha do comandante: “Esta ser minha filho! Esta ser minha filho!” Depois, na ceia, assustou o homem oferecendo um prato com o grito: “Farofia?”. Talvez um gringo seja o único ser humano a quem ela não explica uma coisa emendada na outra. Falta-lhe garganta ao chegar no quinto assunto.

Agora, vamos até a outra ponta da corda. Chegamos. Daqui notamos melhor os vastos contornos do nosso tipo. Pois aqui vive o contrário: a pessoa anti-pessoa-que-explica. Um tipo raro, infelizmente. Ele poupa nosso tempo, indo sempre direto ao ponto. Como meu chefe Jaques, ao ser perguntado porque não faria certa mudança: “Não faço por 5 motivos. Primeiro, não tem o dinheiro. Você ainda quer saber os outros 4?” Sentiu o choque da diferença?

E agora, finalmente, o último parágrafo. 2.022 caracteres depois. Precisa-se mesmo de tudo isso? Porque não resolver o assunto com um só golpe? Bem, eu explico.